O TRÍPLICE NÃO
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uando lidei com o público no Bate-Papo Bar (praia Piedade/PE), ocorreram algumas situações que ainda me eram estranhas ou inusitadas, as mais freqüentes me foram ser transformado num tipo de psicólogo, onde eu ouvia e dava conselhos, nem que fossem para algum embebedado de momento. Sendo mais recompensado por ensinar meus auxiliares, que tinham pouca vivência em alguns assuntos e noutros eu era ensinado. Isso devido mais ao folclore e costumes de nossas regiões, em relação às diferenças sulistas com as nordestinas, afirmo que ter nascido em São Paulo, foi como ter feito uma universidade de vida e comentava isso com eles, sem menosprezá-los.
E assim, querendo sempre mostrar utilidade e ser cordial, fui até a mesa daquela jovem que ficou algum tempo me observando, até depois do casal que a acompanhavam ter ido dar uma volta na direção do declive rochoso da beira-mar. Toda circunvizinhança sabia ser, um lugar apropriado para brincarem sexualmente com ou sem amor e até fumarem uma maconha básica desnecessária, pois, sob um céu admiravelmente estrelado, daquele pedacinho de paraíso, “viajar longitudinalmente” para quê?
— Olá, tudo bem? E sentei-me ao seu lado.
— Está sim... Meus amigos foram dar uma voltinha e eu preferi ficar aqui tomando essa cerveja e ouvindo tuas músicas.
— Mas as músicas não são minhas, são suas também; eu às coloquei achando que vocês iam gostar.
— E gostei mesmo. Você é um cara legal...
— Obrigado pelo “cara”, assim me sinto mais jovem. Eu percebi que você estava pensativa, algum problema?
— Não, não estou aperreada (apuro, dificuldade) não... Estava só pensando em você. (olhos nos olhos)
— Espero que bem, senão, seria um problema verdadeiro. (sorrindo)
— Melhor impossível. E passou a mão, meigamente, no meu rosto.
Eu não esperava por aquilo, de modo repentino. Mas ela era uma linda jovem e algumas músicas, realmente estavam sendo colocadas para ela, como se fosse uma dedicação contemplativa à sua beleza. Quando eu não posso escrever sobre, coloco música para.
— Quando uma “bonita” passa a mão em meu rosto, tão delicadamente, eu costumo aproximar-me e dar um beijo. (murmurei)
E assim, beijamo-nos por quase uma canção inteira. Não mais ouvindo quem cantava, mas somente, o marulhar das ondas, daquele intenso mar. A noite estava, como sempre foi, muito agradável. E o beijo se prolongou até onde ela quis, porque eu havia me posicionado antes, estrategicamente, esperando por um longo beijo, pelo meu murmúrio anterior.
E imediatamente, após ofegante beijo...
— Eu quero um filho teu!
Nem acreditei que estava ouvindo aquilo pela primeira vez em minha vida, porque, este tipo de pedido só me foi feito, depois delas estarem grávidas. E assim, por escutar algo tão admirável, inédito e vindo de uma garota jovem e linda, daí sim, me senti endeusado e ainda estremecido, com o regional sotaque de sua voz macia e o pedido em si, e inspirado, continuei...
— E posso saber por que fui o escolhido?
— Pelo seu jeito de ser, pela delicadeza dos seus modos. Por tua voz.
— Mas eu sou casado e tenho uma filha ainda pequena. (escapou isso)
— Não faz mal. Eu só quero ter um filho seu. Por isso estava pensativa ao te olhar.
— Mas você não poderá cuidar dele sozinha. (tentei arrumar o erro)
— Só em saber que é seu, terei prazer em ser a mãe dele.
Ela disse estar com 22 anos. Linda. E assim, o casal chegou cheio de alegria para dar e vender. Não era maconha. E como a clientela se resumia naquela noite a nós, resolvi fechar o bar e dar uma carona para eles, porque tinha um assunto ainda em andamento para resolver com aquela menina.
No meio de um caminho qualquer (e é engraçado quando passamos pelo mesmo caminho todos os dias e nem percebemos algo de diferente e isso muda completamente quando estamos em estado de graça aparente), o casal pede para descer e ela fica comigo sem maiores restrições. A noite estava como eu mencionei; agradável. Agora muito mais agradável que antes. Eu ainda estava perplexo com a situação que me envolvia.
— Aonde vamos? Murmurei
— Você que sabe... Aproximou-se mais ainda de mim, calorosamente.
Era irresistível escutar o “você que sabe” e não me dirigir ao motel mais freqüentado naquelas redondezas que era de nome “ce ke sabe” (desta forma). E assim, sem espera alguma, entramos. E amparados por um quarto rústico e com odores agradáveis, brindávamos a nós, com alguma bebida adocicada, trocamos alguns beijos e a brincadeira do desabotoar a roupa um do outro se iniciou.
— Você promete ir bem devagar? (sussurrando)
— Claro que sim, minha linda. (já incitado)
— É que sou virgem.
— Você é muito brincalhona, não é? Virgem e libriano combinam. (irônico)
— É sério. Nunca fiz sexo com ninguém. Ressabiada (ressentida)
— ... (apenas sobressaltado, impressionado, abismado)
Querer ter um filho meu era passível de concretizar, mas ser virgem, querer ser mãe, e me escolher para ser o primeiro homem, isso ocasionou em mim, um sentimento do qual eu jamais havia passado, pois a comprovadamente única virgo intacta (virgem), da minha vida tinha sido a geminiana Alma Mater (mãe nutridora) do meu primeiro filho.
Parei com tudo que se iniciava por fazer e mantive uma distância segura do meu corpo ao dela e falei:
— Você é muito doidinha. (com afeto)
— Só porque quero um filho seu? (aparentemente tranqüila)
— Nem tanto, mas pelo fato de dizer que é virgem e querer dividir esta preciosidade comigo, parece sim... (seriamente despido, poético e perplexo)
— Nunca vou te cobrar nada. (afirmativa)
— Não posso me envolver com alguém que quer me dar duas escolhas irresistíveis e nenhuma opção reversível. Já te disse que sou casado, tenho uma menininha adorável, casa para manter e essas coisas de marido... E ainda não acredito que seja virgem. (destoado)
Ainda estávamos no século XX, mas isso não modificou em nada o comportamento sexual das pessoas de há muito tempo. Uma garota na idade dela, sexualmente virgem, particularmente bonita, pernambucana e parcialmente inteligente, para muitos homens, seria como ter encontrado, enfim, a pedra filosofal (fórmula secreta que os alquimistas da idade Média e da Renascença, tentavam descobrir para transmudar metais comuns em ouro). Ela valia em tal momento, mais do que ouro fino (24 quilates), pois me fez ficar em estado de bem-aventurado.
— Vem comprovar vem, mas venha devagar... E fechou seus olhos.
Aquela não era uma situação para provar ou comprovar e muito menos de comedir-me, os instintos eram fortes e a carne fraca, a jovialidade dela me transformava no primata que escolhe sua melhor fêmea para ter seus filhotes saudáveis. A intuição me dizia que algo estava fugindo do meu controle e minha vontade clamava ardentemente pelo ato em si. Eu deveria aproveitar que ela estava de olhos fechados, sensualmente fechados, e saídos dali imediatamente, sem nem olhar para trás. Mas, práesens rei status atténditur, non qui eveníre pótest (deve-se atender ao estado presente da coisa, não ao que poderá ocorrer no futuro) e, permissa venia, sit venia verbo (com o devido respeito, desculpem a expressão), assim sendo...
— Fique de olhos fechados e ouça a música, pois teu corpo dourado merece ser tocado suavemente, com o carinho do meu coração. Vou beijar seus cabelos. Vou beijar seu pescoço e sua nuca. Vou beijar seus seios, (e beijei-os), vou beijar a sua vulva macia, (...) e pedir silenciosamente aos deuses, para sentir cada um de seus gemidos. Vou afastar meu objeto sexual (usei outra definição, é claro) e tocá-la com meus dedos, assim..., lentamente.... Agora que está umedecida e quente, não se reprima durante os meus contatos... (vibrando)
— ... Reticenciando-me.
— Pode vir meu amor. Quero ser toda sua. Só sua... E separou (suplicante) os joelhos, como quem acabara de assistir a uma cena sensual e quisesse reproduzir o que aprendera, e prontamente excitada, pulsante e adolescente, tal qual uma experiente mulher, que cerra seus olhos para me receber por completo, momentos antes de ser possuída e amada.
Seus joelhos se alinharam e lentamente se afastaram outra vez, e mentalmente, mantive uma conversa deslumbrante com a sua bela vulva vaginal e minha impensável glande, a menos de trinta centímetros, com minha alma voluptuosa e deveras carente, deste ato que ia se consumar em décimos de segundos...
In extremis (no último momento)
— Não!?
— Eu não posso.
— Não devo... (lamuriando-me, por parar)
Não me importei com o que ela pensou ou não, afinal, para alguém que ainda não tinha feito sexo até então, nenhum conceito haveria ter formado, a respeito da minha desistência em prosseguir. Ela não me chamaria de covarde no primeiro não, nem de efeminado no segundo ou de impotente no derradeiro não. Ela realmente era virgem! A obstrução que senti ao tentar entrar-me, dedilhando por sua ilibada vagina, assim me confirmava.
O surrealismo maior foi, àquela fantasia que eu podia tocar com as mãos, tornar-se-ia uma realidade. Dificilmente, terei igual acontecimento, pelo remanescente da minha vida. C’est la vie (é a vida)
Por mais duas vezes saímos e nos deitamos juntos sobre a cama de um motel. E nessas duas vezes, afora alguns eróticos orgasmos, meneados por nossas mãos, de maneira à não deflorá-la, não fiz sexo com ela. Diriam meus amigos que eu “abestalhei” de verdade. De fato, descrevo que “amarelei”. E não tenho, nem de longe, erotofobia (horror ao ato sexual). Há quem tenha. (acho que alterei de assunto, só para disfarçar a minha absurda decisão do tríplice não).
(do livro a editar: Pai de Salto Alto – págs. 24 a 27)
Robson
19/01/2012


