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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O TRÍPLICE NÃO




Q
uando lidei com o público no Bate-Papo Bar (praia Piedade/PE), ocorreram algumas situações que ainda me eram estranhas ou inusitadas, as mais freqüentes me foram ser transformado num tipo de psicólogo, onde eu ouvia e dava conselhos, nem que fossem para algum embebedado de momento. Sendo mais recompensado por ensinar meus auxiliares, que tinham pouca vivência em alguns assuntos e noutros eu era ensinado. Isso devido mais ao folclore e costumes de nossas regiões, em relação às diferenças sulistas com as nordestinas, afirmo que ter nascido em São Paulo, foi como ter feito uma universidade de vida e comentava isso com eles, sem menosprezá-los.

E assim, querendo sempre mostrar utilidade e ser cordial, fui até a mesa daquela jovem que ficou algum tempo me observando, até depois do casal que a acompanhavam ter ido dar uma volta na direção do declive rochoso da beira-mar. Toda circunvizinhança sabia ser, um lugar apropriado para brincarem sexualmente com ou sem amor e até fumarem uma maconha básica desnecessária, pois, sob um céu admiravelmente estrelado, daquele pedacinho de paraíso, “viajar longitudinalmente” para quê?

— Olá, tudo bem? E sentei-me ao seu lado.
Está sim... Meus amigos foram dar uma voltinha e eu preferi ficar aqui tomando essa cerveja e ouvindo tuas músicas.
— Mas as músicas não são minhas, são suas também; eu às coloquei achando que vocês iam gostar.
E gostei mesmo. Você é um cara legal...
— Obrigado pelo “cara”, assim me sinto mais jovem. Eu percebi que você estava pensativa, algum problema?
Não, não estou aperreada (apuro, dificuldade) não... Estava só pensando em você. (olhos nos olhos)
— Espero que bem, senão, seria um problema verdadeiro. (sorrindo)
Melhor impossível. E passou a mão, meigamente, no meu rosto.

Eu não esperava por aquilo, de modo repentino. Mas ela era uma linda jovem e algumas músicas, realmente estavam sendo colocadas para ela, como se fosse uma dedicação contemplativa à sua beleza. Quando eu não posso escrever sobre, coloco música para. 

— Quando uma “bonita” passa a mão em meu rosto, tão delicadamente, eu costumo aproximar-me e dar um beijo. (murmurei)

E assim, beijamo-nos por quase uma canção inteira. Não mais ouvindo quem cantava, mas somente, o marulhar das ondas, daquele intenso mar. A noite estava, como sempre foi, muito agradável. E o beijo se prolongou até onde ela quis, porque eu havia me posicionado antes, estrategicamente, esperando por um longo beijo, pelo meu murmúrio anterior.  

E imediatamente, após ofegante beijo...

Eu quero um filho teu!

Nem acreditei que estava ouvindo aquilo pela primeira vez em minha vida, porque, este tipo de pedido só me foi feito, depois delas estarem grávidas. E assim, por escutar algo tão admirável, inédito e vindo de uma garota jovem e linda, daí sim, me senti endeusado e ainda estremecido, com o regional sotaque de sua voz macia e o pedido em si, e inspirado, continuei...

— E posso saber por que fui o escolhido?
Pelo seu jeito de ser, pela delicadeza dos seus modos. Por tua voz.
— Mas eu sou casado e tenho uma filha ainda pequena. (escapou isso)
Não faz mal. Eu só quero ter um filho seu. Por isso estava pensativa ao te olhar.
— Mas você não poderá cuidar dele sozinha. (tentei arrumar o erro)
Só em saber que é seu, terei prazer em ser a mãe dele.

Ela disse estar com 22 anos. Linda. E assim, o casal chegou cheio de alegria para dar e vender. Não era maconha. E como a clientela se resumia naquela noite a nós, resolvi fechar o bar e dar uma carona para eles, porque tinha um assunto ainda em andamento para resolver com aquela menina.

No meio de um caminho qualquer (e é engraçado quando passamos pelo mesmo caminho todos os dias e nem percebemos algo de diferente e isso muda completamente quando estamos em estado de graça aparente), o casal pede para descer e ela fica comigo sem maiores restrições. A noite estava como eu mencionei; agradável. Agora muito mais agradável que antes. Eu ainda estava perplexo com a situação que me envolvia.

— Aonde vamos? Murmurei
Você que sabe... Aproximou-se mais ainda de mim, calorosamente.

Era irresistível escutar o “você que sabe” e não me dirigir ao motel mais freqüentado naquelas redondezas que era de nome “ce ke sabe” (desta forma). E assim, sem espera alguma, entramos. E amparados por um quarto rústico e com odores agradáveis, brindávamos a nós, com alguma bebida adocicada, trocamos alguns beijos e a brincadeira do desabotoar a roupa um do outro se iniciou.

Você promete ir bem devagar? (sussurrando)
— Claro que sim, minha linda. (já incitado)
É que sou virgem.
— Você é muito brincalhona, não é? Virgem e libriano combinam. (irônico)
É sério. Nunca fiz sexo com ninguém. Ressabiada (ressentida)
— ... (apenas sobressaltado, impressionado, abismado)

Querer ter um filho meu era passível de concretizar, mas ser virgem, querer ser mãe, e me escolher para ser o primeiro homem, isso ocasionou em mim, um sentimento do qual eu jamais havia passado, pois a comprovadamente única virgo intacta (virgem), da minha vida tinha sido a geminiana Alma Mater (mãe nutridora) do meu primeiro filho.

Parei com tudo que se iniciava por fazer e mantive uma distância segura do meu corpo ao dela e falei:

— Você é muito doidinha. (com afeto)
Só porque quero um filho seu? (aparentemente tranqüila)
— Nem tanto, mas pelo fato de dizer que é virgem e querer dividir esta preciosidade comigo, parece sim... (seriamente despido, poético e perplexo)
Nunca vou te cobrar nada. (afirmativa)
— Não posso me envolver com alguém que quer me dar duas escolhas irresistíveis e nenhuma opção reversível. Já te disse que sou casado, tenho uma menininha adorável, casa para manter e essas coisas de marido... E ainda não acredito que seja virgem. (destoado)

Ainda estávamos no século XX, mas isso não modificou em nada o comportamento sexual das pessoas de há muito tempo. Uma garota na idade dela, sexualmente virgem, particularmente bonita, pernambucana e parcialmente inteligente, para muitos homens, seria como ter encontrado, enfim, a pedra filosofal (fórmula secreta que os alquimistas da idade Média e da Renascença, tentavam descobrir para transmudar metais comuns em ouro). Ela valia em tal momento, mais do que ouro fino (24 quilates), pois me fez ficar em estado de bem-aventurado.
 
Vem comprovar vem, mas venha devagar... E fechou seus olhos.

Aquela não era uma situação para provar ou comprovar e muito menos de comedir-me, os instintos eram fortes e a carne fraca, a jovialidade dela me transformava no primata que escolhe sua melhor fêmea para ter seus filhotes saudáveis. A intuição me dizia que algo estava fugindo do meu controle e minha vontade clamava ardentemente pelo ato em si. Eu deveria aproveitar que ela estava de olhos fechados, sensualmente fechados, e saídos dali imediatamente, sem nem olhar para trás. Mas, práesens rei status atténditur, non qui eveníre pótest (deve-se atender ao estado presente da coisa, não ao que poderá ocorrer no futuro) e, permissa venia, sit venia verbo (com o devido respeito, desculpem a expressão), assim sendo...

— Fique de olhos fechados e ouça a música, pois teu corpo dourado merece ser tocado suavemente, com o carinho do meu coração. Vou beijar seus cabelos. Vou beijar seu pescoço e sua nuca. Vou beijar seus seios, (e beijei-os), vou beijar a sua vulva macia, (...) e pedir silenciosamente aos deuses, para sentir cada um de seus gemidos. Vou afastar meu objeto sexual (usei outra definição, é claro) e tocá-la com meus dedos, assim..., lentamente.... Agora que está umedecida e quente, não se reprima durante os meus contatos... (vibrando)
  ... Reticenciando-me.
Pode vir meu amor. Quero ser toda sua. Só sua... E separou (suplicante) os joelhos, como quem acabara de assistir a uma cena sensual e quisesse reproduzir o que aprendera, e prontamente excitada, pulsante e adolescente, tal qual uma experiente mulher, que cerra seus olhos para me receber por completo, momentos antes de ser possuída e amada.

Seus joelhos se alinharam e lentamente se afastaram outra vez, e mentalmente, mantive uma conversa deslumbrante com a sua bela vulva vaginal e minha impensável glande, a menos de trinta centímetros, com minha alma voluptuosa e deveras carente, deste ato que ia se consumar em décimos de segundos...   

In extremis (no último momento)

Não!?
— Eu não posso.
Não devo... (lamuriando-me, por parar)

Não me importei com o que ela pensou ou não, afinal, para alguém que ainda não tinha feito sexo até então, nenhum conceito haveria ter formado, a respeito da minha desistência em prosseguir. Ela não me chamaria de covarde no primeiro não, nem de efeminado no segundo ou de impotente no derradeiro não. Ela realmente era virgem! A obstrução que senti ao tentar entrar-me, dedilhando por sua ilibada vagina, assim me confirmava.

O surrealismo maior foi, àquela fantasia que eu podia tocar com as mãos, tornar-se-ia uma realidade. Dificilmente, terei igual acontecimento, pelo remanescente da minha vida. C’est la vie (é a vida)

Por mais duas vezes saímos e nos deitamos juntos sobre a cama de um motel. E nessas duas vezes, afora alguns eróticos orgasmos, meneados por nossas mãos, de maneira à não deflorá-la, não fiz sexo com ela. Diriam meus amigos que eu “abestalhei” de verdade. De fato, descrevo que “amarelei”. E não tenho, nem de longe, erotofobia (horror ao ato sexual). Há quem tenha. (acho que alterei de assunto, só para disfarçar a minha absurda decisão do tríplice não).


(do livro a editar: Pai de Salto Alto – págs. 24 a 27)


Robson
19/01/2012

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