AH... SE FOSSE FÁCIL
Sai de Sampa com lenço, documentos, cartão de crédito
para fugir do alvoroço imbatível da cidade grande,
no rosto um sorriso e um grande alivio,
deixei o velho amigo computador, o micro-ondas, a lava-roupas
e o refrigerador e no bolso o recibo de compra
do novo morador...
Deixei lá também metade da minha depressão
as últimas contas para pagar
todos os móveis e suas lembranças e a usual televisão
nem avisei os amigos que ia mudar
e assim me livrava da minha dor...
No carro extremamente lotado só de necessários
e a pedido veemente do meu filhote
esse sim, meu grande dote
partimos juntos as terras dos oxentes
e de novos vocabulários
pelas bandas de Jaboatão dos Guararapes...
Não sem antes parar em Porto de Galinhas
pois lhe havia prometido
brincar em águas clarinhas
com os peixes in natura naquele paraíso colorido.
Ele foi (e é) um ótimo co-piloto traseiro
vim lhe ensinando como dirigir
como não ultrapassar em momento incerto
e como se perder em estrada sem placas
e ouvir vários “uais moço”, o Sr. tá longe
- Se o logo ali do mineiro é distante
imaginem o longe...
Uma aventura, de pai e seu filho, que recomendo
não necessariamente cheia de motivações
pois a união destas duas almas
nos fizeram engrandecer nossas emoções
pena que a moeda tenha duas faces
e um filho não se pode dividir em porções...
Ah... Se fosse fácil !
Por um longo tempo eu perdi minha própria sombra
pois a sombra que mais via
foi a deste filho nos meus ombros
manhã, tarde, noite e dia
Eu fui o guarda-costas, a empregada, o tio,
de vez em quando o amigo
mas ele acha que sou pai
aquele que ensina e dita o castigo
e também serve de sela, escada, bóia
e por ai vai... Também me tornei um pai pródigo
montei nova casa para um garoto prodígio.
Talvez a parte mais dolorida
seja jogar em telhados
seus dentes de leite,
a fazer bolinhos de chuva
num tarde ensolarada,
a procura, hoje impossível,
de lhe dar um papagaio de penas,
a busca pelas cidades
de um bom pastel de feira,
a não poder trabalhar integralmente
pois não acredito em mães de aluguel
e por ter me tornado uma “mãe” rabugenta...
Pelas mudanças que ocorrem no mundo,
onde tantos pedem um pai participativo
eu ganharia a honra ao mérito
atrasaria anos de luz psicológica
e ainda por esses caminhos
ficaria sem crédito,
pois a tarefa do pai é de ser provedor
um exímio lutador
e não um pai doméstico
e eu sou um pai materno
é essa hoje a nova dor...
Essa dor presente, do passado, se torna ausente
quando o abraço é apertado de amor
me torno um valente.
Ele me ensina até hoje
o que eu já havia esquecido:
chorar por emoção
a brincar sem medos
a correr quando o bicho pega
a parar para amenizar
e viver, meio sem pensar
e até mordendo meu braço
quando teve que tomar uma injeção. E eu lá, defendendo-o...
Ele sai como herói corajoso
e eu com a marca dos seus dentes
disfarçando, bem jocoso
em meio das enfermeiras carentes !
Ah! Se fosse fácil...
Final da parte I
Robson
19/03/2012





Um comentário:
Fofuras. Pai e filho. A primeira vez que vejo alguem sambando com a 'sola dos pés'- rsrrs. Não é fácil mesmo. Aliás, a vida não o é e não traz manual de instrução. Parabéns, pãemãe.
Beijossss.
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