Depois do grande susto,
hoje já estaria feliz, não pelo fato de você não ter ido ao meu enterro, seja
ele cristão ou indígena (onde todos os pertences, inclusive sua morada, são
queimados depois de poucos dias); estaria feliz pelas coisas que não fiz, foram
elas afinal que me fizeram perdurar até ontem, aqueles sonhos de gente terrena,
que todos nós temos e que faz a gente viver.
E nesta felicidade
realmente eterna, terrena-mundana ou celeste-divina, sei que ajudei pessoas que
nunca vi, cegos que nunca enxerguei e calei a boca do atroz com alguns traços
escritos meus. Felicitaria-me humildemente das coisas que falei, algumas
induziram coisas boas, outras, mal aplicadas, resultaram em aprendizado, sempre
percebi que é caindo que se ergue com mais força e é nesta vivencia que me inclui
e já me achava dono de algumas verdades, mas entremeio a isso descobri que não
somos donos de nada, a não ser de algum imóvel registrado em cartório. O que
não foi documentado oficialmente, depois deste apagamento da vida, virou pó,
sumiu.
Deixarei uma grande herança,
só não mencionarei os valores nesse mundo tão ganancioso, pois podem me matar
duas vezes, e eu com esse dom de poesia, sei como morrer várias vezes num mesmo
poema. Com os meus medos e mania de segurança, se facilitar roubam minha alma e
mudariam meu real destino.
A maior herança que
pude deixar, foram traços bons de mim aos meus filhos, seja na parte prática
como na artística, todos têm um pouco de mim em sua cultura e até no lado
espiritualizado de cada um deles. O que mais se aproveitou de mim foi o raspa-de-tacho, por pouco mais de doze
anos de idade, aprendeu, muito mais pelo próprio dom, a chorar as emoções e
brilhar seus olhos na alegria. Foi também até hoje, o que mais me arretou, em todos os substantivos e
adjetivos da palavra e o que mais não deixei me perder deles.
Já fui empregado,
funcionário público, sócio e dono. Plantei árvores. Fiz filhos e escrevi um
livro editado (http://www.avemaria.com.br/produto/734-bardossemnome) que falava de minhas
vicissitudes e de alguns vícios de percurso, tenho outros inacabados; todo
livro de qualquer escritor é inacabado, até mesmo os de matemática. Vivemos em
evolução, porém conheci pessoas que faziam questão de dizer que o homem nunca
foi à lua. Imagine então falar sobre viagens astrais além do corpo...
Vivi, bebi, comi,
dormi, acordei, sonhei, realizei, falhei, consertei, aprendi, ensinei, desandei,
briguei e amei de paixão. Casei e descasei. Senti dores e êxtases, mediquei,
benzi e aprendi muito sobre depressão, pânico e paz. Foram tantas lasanhas, cabidelas,
bifes a milanesa, sorvete italiano, trufas, folhagens e pizzas e todo sábado,
de praxe, feijoada completa com vinho ou caipirinha, que acabei descobrindo que
minha alma é pequena, precisava de mais corpo para cabê-la... (meras
desculpas).
Passei algumas fomes, oras,
quem não as teve por algum momento? A fome é relativa com a vontade de comer
alguma coisa que não se têm na despensa, mas não morri de vontade; há pessoas
que morrem. Uns morrem ao atravessar uma rua ou a voar sobre um abismo. Tantos
morreram em batalhas fúteis e não passaram de soldados rasos treinados para
morrer. Outros se medalharam por terem dizimado pessoas.
Trato a morte com
naturalidade, mas a saudades que fica de quem parte é um caso a parte, uma dor
a ser trabalhada. Ainda estou aprendendo isso, já que a certeza absoluta do
reencontro pós vida ainda me é pré indefinido, faltando apenas morrer para isso
aprender.
Eu mudei pessoas e fui
mudado por algumas, foram muitas mudanças e nesse muda-muda, não deixarei uma
semente de mim, apenas vim, vi e venci, se venci pouco foi falta de tempo e não
falta de vontade, isso me lembra estar nas dependências de um grande hospital,
com os pés doendo e encontrar aos corredores sem fim, pessoas totalmente truncadas
na cadeira de rodas, sorrindo, enquanto eu reclamava de uma dorzinha. Disse-me
alguém num culto que Deus é uma parte de mim e que sou uma parte Dele,
portanto, se eu dançar ele dança, se eu gostar Ele gosta, se eu morrer, daí eu
num sei. Não deve ser como esquecer alguém propositalmente, ao ponto desta
pessoa sumir da nossa vida.
Se eu morrer ontem, é
mais seu destino ficar sem mim do que eu sem você. Torna-se natural a morte que
não me dá medo, do que as surpresas indesejadas que esta vida proporciona,
porém acredito que tudo está correto, igual aos alimentos com seus prazos de
validade, assim sou eu. Tenho prazo de validade.
Felizmente você também.
Sou paciente. E não vá ao meu enterro, como eu gostaria de não ir ao seu. A missão foi cumprida. Assim me vejo.
Quem sabe a gente se encontra,
como é meu desejo.
Robson
29/11/2013






